segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Pequena notável

Eu, enrubescida, olhava-o discretamente. Cabeça baixa, olhando para o mesmo lado em que ele despreocupadamente olhava. Sentia-me que naquele momento não fazia a menor diferença àquele que punha em seu prato o desejo carnal regado de molho branco e proibido a mim. O sentimento de impotência que recobria meu delgado corpo desnudo em olhar-lhe não era nada além, senão, que minha sobrevivência, por isso minha enrubescência em dizer-lhe quais eram meus desejos e de julgar-me aos seus. Julguem-me as pessoas por isso, mas que os iguais perdoem minha domesticação.

Meus olhos seguiam os movimentos circulares que sua mão descrevia no ar sobre a fonte de meus desejos. Provavelmente ele sabia de minha espera, mas, como sempre, ignorava-me, mesmo eu fazendo-me ver. Arranhei-lhe as pernas e sua mão, vazia, esfregou-me lentamente separando os fios de minha cabeça por entre seus dedos. Fechei os olhos, senti-lhe o cheiro das mãos, cheirava de modo proibido. Esfreguei minha face em sua perna, mas ele afastou-a vagarosamente e voltou-se ao seu movimento circular.

Saibam vocês que esse total desdém as minhas desejosas vontades não advém de um não amar, ele me ama, me ama de sua forma, renegando-me ao que sou em consenso, por isso a não estranheza em seus gestos por minha parte. Então, aguardei desejosa. Não movia minhas pálpebras, apenas desolhava de modo estrábico quando ele jogava uma breve atenção sobre mim. Fixada com meu olhar em suas mãos, fiquei. Ele abaixou-as, deixei que percorressem todo o meu corpo. Como ele é gentil em me acariciar sabidamente dessa forma. Mas não queria apenas carícias, aguardava a carne de sua mão em minha boca.

...

De modo abrupto, ele encerrou minha espera e permitiu-me devorar-lhe a carne. Deitada no chão eu a tinha em minha boca, suculenta e regada a molho branco. Era um pedaço não muito grande, mas satisfez-me enquanto o tinha. Porém, tão breve e já acabou. Mas, soube mais uma vez que ele me amava e isso era tudo. Faria-me depender dele eternamente, ao seu gosto, sendo a sua escrava, alforriada de nascença, presa por consideração. E como se ele percebesse minha opção, mais uma vez sua mão me atravessou o corpo, não suportei tamanho carinho e me entreguei definitivamente com um latido de agradecimento.


A minha pequena notável vira-lata,
...que, certamente, por simbiose me permitiu descrever seu pensamento enquanto eu tinha em mãos um simples prato de comida.

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