domingo, 3 de agosto de 2008

Mal secreto: uma resenha sobre o medo

E, finalmente, respire. Fim da peça. O ar apreendido ainda na primeira cena transforma-se no único ar que o espectador tomará enquanto tenta decifrar o jogo de realidade e ilusão criado por uma mente psicótica. No mundo apresentado, a mente dividida de Heitor, Thiago Cardoso, vaga pelo oculto que vem a tona com o auxílio da psiquiatra, Fabrícia Neres, em sua análise psicanalítica freudiana da mente humana, um mundo oculto, embora presente a todos. Seria conveniente aqui relatar como uma mente dividida, pousada em seu mal secreto, conflituosa consigo e com o mundo, responderia a esse estado, mas, além de conveniente, seria simplista, e não está na simplicidade dos atos cometidos por Heitor a grandeza da peça, mas na simplicidade do medo, de não se conhecer a si próprio.

A mente de Heitor é lógica apenas a ela. Abrindo-a e analisando seus atos em série cometidos no desenrolar da peça ficamos sobre uma base sem sustentação, nada pode ser afirmado como real ao mesmo tempo em que, também, não podemos afirmar nada como irreal. Poderia ser seus atos apenas a criação de sua mente influenciada por estímulos externos. Uma notícia, talvez, lida em um jornal e projetada em uma alucinação. Ou, ao contrário, poderia ser a notícia o resultado de seus atos.

A representação do texto de José Antonio de Souza, proposta pelo diretor Denilson Biguete, emaranha-se nos eus contidos em nós, um conflito intenso do ego partido no qual floresce nossa parte primitiva e os impulsos não censurados. Porém, os conflitos se expandem além da personagem de Heitor, eles não atingem apenas medos pessoais, mas também sociais, com os quais nos defrontamos corriqueiramente em uma expectativa de nunca sermos o alvo de tais impulsos. Nesse ponto reside o nosso desconhecimento sobre nós, o medo não está para os atos cometidos por Heitor, mas em nos projetarmos à realização de tais atos em nosso eu desconhecido e perceber que não sabemos quem somos, daí a simplicidade do medo, por ele ser natural e comum a todos. Então, nesse caso, quem seria Heitor?

A peça, em seu conjunto, merecedora de todos os prêmios já conquistados, fez jus aos aplausos de sua primeira temporada. Encerra-se a fim de permitir que fôlegos sejam retomados, muitos por admiração, conquanto outros por desconforto, choque ou mesmo por ódio de seu teatro moderno, proposta que resultou em uma premeditada fábula de valores imorais. Cabe, enfim, ressaltar os aplausos àqueles que tornaram possível o projeto do grupo Menades & Sátiros Cia de Teatro, sem os quais a grandeza do espetáculo seria inquestionavelmente menor, aos atores: Antonio Junior, Gustavo Dalle Vedove, Joice Aguiar, Mariana Ferrari, Valéria Santos, e Veridianna Ferreira. E àqueles que nem sempre são vistos diretamente, mas que estão em todos os detalhes: Luiz Progetti, Jackson Almir, Ivan Santos, e Guilherme César.

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