sábado, 6 de agosto de 2011

Mise-en-scène, Stanislavski e a literatura (o expectador e o leitor)

Uma cena no teatro não necessita de palavras para acontecer, basta o principal, o ator. A ele cabe a construção de uma linguagem que estabeleça relações entre a peça e os expectadores, ocorrendo, então, em todas as funções que, porventura, o teatro possa oferecer. A essa linguagem, denominamos linguagem teatral.

Dentre as linguagens teatrais, destaca-se a do plano espacial no qual o tablado se compõe; primeiro, segundo, terceiro plano, o proscênio, ou mesmo além da quarta parede, junto à platéia ou qualquer outra área em que a obra permitir. Pois, a partir desse plano espacial, constrói-se o que denominamos mise-en-scène ou, simplesmente, a arte de pôr em cena: no proscênio, a vereda do suor em um rosto bruto e, em terceiro plano, um franzino corpo estendido ao chão, ao expectador, então, a mise-en-scène, mas e ao leitor? A cena não representa apenas dois signos separados, o cansaço e a morte, mas, destacadamente, a impotência da vida perante seu fado, o viver de um pai além de seu filho.

O teatro liga-se à literatura devido a sua composição dramatúrgica e não à sua composição espacial; os atores não estão em cena num livro, mas as personagens. A construção espacial, nesse caso, cabe então ao leitor e não a agentes físicos presentes na obra, ou seja, assim como ao teatro não está no roteiro o teatro, à literatura não está no enredo a literatura. Seria então possível ao leitor tornar-se, também, expectador do livro e construir, dessa forma, a sua mise-en-scène?

Para isso, interessa-nos construir a linguagem que nos falta, não devemos buscar o fim, uma característica imanente ao leitor, porém os meios, para alcançarmos o fim que desejamos. Ressalta-se que não buscaremos esses meios em algum teórico italiano do renascimento, mas em um autor/ator/diretor russo, em Constantin Stanislavski.

Constantin Stanislavski, ator desde os 14 anos, um dos fundadores do Teatro de Arte de Moscou, elaborou um sistema de atuação realista denominado Sistema Stanislavski, do qual derivam-se alguns métodos. Destacam-se, entre esses métodos: a preparação do ator; a criação de um papel; e a construção da personagem. Métodos que se referem aos atores, entretanto, que não por esses estarem no do tablado, deixam, também, de ser leitores.

Ao ator cabe transformar o teatro em teatro e ao leitor, a literatura em literatura. Do mesmo modo como é possível ao ator criar a mise-en-scène ao expectador, também é possível o leitor criá-la para si, tornando-se o agente físico da obra. Mas, para isso, é necessário que o leitor aja como ator, não que interprete o livro que lê, mas que o transforme e o crie para si, assim como o ator transforma e cria a peça ao expectador. O ator, ao aprender por meio de um método como criar o teatro a partir do texto dramaturgo, deve novamente aprender seus atos mais simples, aquilo que, por fazer parte de seu cotidiano e estar acostumado, esquece ao pisar no tablado e ficar diante da platéia, e, no caso do leitor, diante de si mesmo. Deve, portanto, o leitor/ator corrigir e aprender novamente o que esqueceu ao abrir o livro, aprender a andar, a sentar ou deitar, a olhar, ver, a escutar e ouvir...

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