domingo, 13 de novembro de 2011

Certa vez, alguém

Certa vez, uma criança autista cresceu sem saber que era autista. Por isso, não foi tratada como autista e se desenvolveu com os cuidados aos quais qualquer outra criança cresceria. Com uma diferença, sozinho.

Havia muitas pessoas a sua volta, mas não significava que essas pessoas estivessem juntas a essa criança. Isso, por um motivo simples: Estar próximo não significa estar junto.

Com o passar dos anos, essa criança começou a compreender que ela era um ser. Que o mundo a sua volta não estava lá para ela, mas apenas estava e isso já era o suficiente para ela existir.

Então começou analisar o mundo. Observava que muito do que via era compreensível com o seu conhecimento, mas outro muito, não. E para conhecer esse outro lado seria necessário aprender para compreender mais.

No início, o que era fascinante aprender correspondia ao que mais era emergente – Como colocar o mundo em ordem?

Descobriu que algumas ferramentas facilitavam isso. Duas dessas eram a linguagem das palavras e a linguagem dos números.

Portanto, resolveu dominá-las.

Quanto mais dominava essas linguagens, mais compreendia o mundo. Porém, percebia sempre e somente que compreendia a base de uma compreensão ainda maior. E assim continuou, acreditando que um dia compreenderia finalmente algo por completo. Não compreendeu.

Ficou em silêncio. Pois percebeu que também não compreendia seus próprios sentimentos para dizer que havia ficado triste ou chateado. Na verdade, independente de não ser mais uma criança, ainda não sabia qual era a diferença entre triste e chateado.

Ficou sozinho e juntou-se ao ficar em silêncio.

Ficou sentado, pensativo e começou a escrever. Escreveu muito, pois bem, ele dominava bem a linguagem das palavras. Escreveu muito, depois jogou fora quase tudo, porque não fazia sentido. Escreveu outra vez e jogou fora outra vez.

As pessoas sobre quem escrevia não faziam mais sentido. Percebeu que as respostas que havia encontrado em livros não serviam em diversos momentos para entender as pessoas. Não entendia, por exemplo, porque a única pessoa próxima dele o fazia chorar.

O que mais o irritava não era mesmo sendo um adulto, chorar. Era ser um adulto e não entender porque o fazia.

E no silêncio, sentado, escreveu: Até que ponto somos o que somos por natureza e até que ponto somos o que somos porque queremos ser?

A resposta para essa pergunta começou a ser escrita a partir de uma resposta pessoal: Eu sei que sou o que quis ser, mas não sei se o que quis ser foi algo querido pelo que sou. Pode ser que sim ou pode ser que quis ser o que sou porque outros quiseram que eu quisesse ser o que quis ser.

Como a resposta ficou complica, ele resolveu utilizar a linguagem dos números para visualizá-la melhor. Escreveu algumas proposições e as organizou até que chegassem a uma resposta sempre verdadeira, uma tautologia.

Ele tinha a resposta. Mas aquela resposta não modificava o seu mundo. Era apenas uma resposta. A resposta não o fazia entender a si mesmo, não o fazia entender a diferença entre triste e chateado, não o fazia entender porque alguém o fazia chorar e não o fazia entender porque estava sozinho, sentado, pensativo e escrevendo. O fazia compreender o mundo, mas não entendê-lo.

Hoje, esse alguém, ainda segue a vida compreendendo-a, mas nem sempre a entendendo. Percebeu apenas que algumas respostas não são para serem compreendidas, apenas entendidas. Por isso, esse é seu novo passatempo.
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